O Brasil tem hoje quase 1,5 milhão de advogados regularmente inscritos na OAB. Somando estagiários e suplementares, o sistema passa de 1,6 milhão de profissionais. Em média, isso é um advogado para cada 140 brasileiros, aproximadamente.
Quantidade nunca foi sinônimo de visibilidade. Mesmo em um mercado desse tamanho, a maioria desses profissionais continua invisível justamente para quem mais precisa deles.
O motivo não está na formação técnica. Durante os anos de faculdade, o estudante de Direito aprende a falar com quem já entende de Direito: juízes, promotores, colegas de profissão. Aprende a valorizar petições longas, termos em latim, o chamado “juridiquês” como sinal de domínio da matéria. O problema começa quando esse mesmo profissional tenta usar essa linguagem para conversar com quem não é da área.
Para o cliente comum, seja ele alguém passando por um divórcio ou um empresário com um problema fiscal, a linguagem técnica não impressiona, afasta. Ele não quer saber o número da súmula. Quer saber duas coisas: como esse profissional resolve o problema dele, e o que isso muda na vida ou no bolso dele. Quando o advogado não traduz o que sabe para uma linguagem simples, ele perde a chance de criar confiança, que é o único ativo que realmente vende um serviço jurídico.
É aqui que nasce a comoditização. Se um cliente pesquisa e encontra três advogados dizendo a mesma coisa, com a mesma postura formal e impessoal, ele perde a capacidade de julgar quem é tecnicamente melhor. Sem esse critério, resta um único critério de comparação que todo mundo domina: o preço. E é assim que profissionais tecnicamente excelentes acabam competindo por honorários mais baixos, só para não perder o cliente para o escritório ao lado.
A diferença entre ser um bom advogado e ser um advogado reconhecido está exatamente aqui. O bom advogado é excelente em prazos, processos e teses, mas depende do boca a boca e, sem construir nenhum canal próprio de relacionamento com o público, some no meio da multidão. O advogado reconhecido faz o mesmo trabalho técnico sério, mas soma a isso um posicionamento claro: escolhe um território de atuação, comunica com clareza, e deixa o cliente entender o valor do serviço antes mesmo de perguntar o preço.
Os números confirmam esse abismo. Segundo o 1º Estudo Demográfico da Advocacia Brasileira, feito pela FGV a pedido da OAB, 64% dos advogados no país ganham até R$ 6,6 mil por mês, e 34% não passam de R$ 2,6 mil. Do outro lado, apenas 5% ultrapassam R$ 26 mil mensais. A diferença entre esses dois grupos raramente é conhecimento jurídico. É estratégia de comunicação.
Isso não significa abandonar a discrição que sempre marcou a profissão. Significa reconhecer que ela mudou de forma. A própria OAB já entendeu isso: pelo Provimento 205/2021, é permitido, e cada vez mais necessário, usar as redes sociais e outros canais digitais para informar o público sobre seus direitos, de forma clara e ética. A regra não mudou para permitir vender mais. Mudou para permitir explicar melhor, sem prometer resultado e sem transformar a advocacia em vitrine.
O sucesso na advocacia moderna não depende só do que o profissional sabe, mas de como ele se posiciona diante do mercado. Ética e estratégia de comunicação não competem entre si, andam juntas. Não é sobre aparecer mais. É sobre ser lembrado com clareza pelo que se sabe fazer. Num mercado com um advogado para cada 140 brasileiros, essa é a diferença real entre ser mais um nome na lista e ser o nome que vem à cabeça quando alguém precisa de ajuda.
Fontes:
https://legale.com.br/blog/por-que-tantos-advogados-desistem-da-profissao-e-como-evitar-isso/
https://www.oab.org.br/institucionalconselhofederal/quadroadvogados
https://www.uniritter.edu.br/blog/mercado-juridico-novos-perfis-advogados/
Uma resposta
Excepcional abordagem sobre um assunto tão atual e delicado no meio jurídico.
Parabéns!